O recreio que continua no celular: o cyberbullying começa na escola, e a conversa começa em casa
Um estudo da Unifesp com 4,2 mil adolescentes mostrou que a violência na internet quase sempre continua um conflito que nasceu no pátio. Tirar o celular de castigo não resolve. Perguntar como foi o recreio, sim.

Seu filho chega da escola, larga a mochila e some no quarto com o celular. Fecha a porta. Responde com monossílabos no jantar.
A conclusão parece óbvia: o problema é a tela. Mas eu quero te provocar hoje. E se o problema começou às dez da manhã, no recreio?
Na minha geração, o apelido maldoso ficava no portão da escola. A gente ia para casa e, bem ou mal, tinha uma trégua até o dia seguinte. Hoje não existe portão. O grupo da turma vai junto, no bolso, até a hora de dormir.
O que o estudo da Unifesp descobriu
Pesquisadores do Departamento de Medicina Preventiva da Escola Paulista de Medicina, da Unifesp, coordenados pela professora Zila Sanchez, acompanharam 4,2 mil adolescentes. O estudo foi publicado na revista científica Psychiatry Research e chegou ao noticiário no dia 1º de outubro de 2026.
A pergunta era simples: o cyberbullying nasce na internet ou vem de outro lugar? A resposta apareceu em três grupos:
- 48% dos alunos não tinham envolvimento relevante com nenhum tipo de violência.
- 46% sofriam bullying presencial com frequência, e alguns também praticavam, mas quase não se envolviam com cyberbullying.
- 6% eram o que os pesquisadores chamaram de vítimas-agressores em múltiplos contextos: sofriam e praticavam agressões na escola e nas telas, ao mesmo tempo.
É esse último grupo que precisa da nossa atenção. Entre esses adolescentes, 52,4% tinham sintomas psicológicos em nível clínico, contra 12,5% entre quem não se envolvia com bullying. Na conta dos pesquisadores, são 11 vezes mais chances de sofrimento psicológico. E sete em cada dez já tinham bebido álcool.
E aí me caiu a ficha
A gente está olhando para o lugar errado.
Desde 2025, a Lei 15.100 proíbe o uso do celular pelos alunos durante a aula, o recreio e os intervalos em todas as escolas de educação básica do país. Foi uma decisão importante, e eu apoio. Mas repare: o celular saiu do recreio, e a violência não saiu junto. Ela espera o sinal bater e continua no grupo da turma.
Eu sempre digo que as redes funcionam como uma lupa. Elas não criam o que a criança sente nem o que ela faz. Elas ampliam e aceleram. A piada que morreria na sala vira figurinha. O empurrão vira vídeo. O "ninguém senta com ela" vira um grupo novo, sem ela.
Por isso, tirar o celular de castigo não resolve. Às vezes, piora. Se o seu filho é a vítima e aprende que contar significa perder o celular, ele para de contar. Simples assim.
Não é brincadeira. É lei.
Desde janeiro de 2024, a intimidação sistemática está no Código Penal, no artigo 146-A, incluído pela Lei 14.811. O bullying é punido com multa, quando não for um crime mais grave. Quando acontece pela internet, em redes sociais, aplicativos ou jogos online, vira cyberbullying, com pena de reclusão de dois a quatro anos, além de multa.
Quando o autor é adolescente, ele responde por ato infracional, pelo Estatuto da Criança e do Adolescente, com medidas socioeducativas. E a escola não pode lavar as mãos: a Lei 13.185, de 2015, diz que é dever do estabelecimento de ensino garantir medidas de conscientização, prevenção, diagnóstico e combate ao bullying.
Eu não estou dizendo isso para assustar. Estou dizendo porque muito adolescente acha que "era só zoeira". E muito adulto também.
Vítima, agressor ou os dois
O dado mais incômodo do estudo é esse grupo de 6% que está dos dois lados. A criança que apanha no pátio e devolve no grupo. A que é humilhada e humilha alguém mais fraco para não ser a última da fila.
Aqui vale uma ideia que eu levo para tudo: entender não é desculpar. Nada é do nada. Todo comportamento tem uma raiz, e olhar a raiz é o primeiro passo para mudar. Mas cada escolha tem consequência, e o seu filho precisa aprender isso com você antes de aprender com a polícia.
Se você descobrir que o seu filho é quem agride, respire antes de defender no automático. "Ele não faria isso" é a frase que mais atrasa a solução. A culpa não é da criança, no sentido de que ela ainda está aprendendo. A responsabilidade de ensinar é nossa. Escrevi sobre isso em A culpa não é da criança.
Os sinais que aparecem em casa
Nenhum sinal sozinho prova nada. O que importa é a mudança que se repete, como o próprio estudo recomenda observar:
- Não querer ir à escola, dor de barriga toda segunda-feira, pedir para faltar em dia de educação física.
- Ficar tenso ou irritado depois de olhar o celular, ou largar o aparelho de repente quando você chega perto.
- Apagar aplicativos, trocar de conta, sair do grupo da turma sem explicar.
- Mudanças no sono, no apetite e nas notas.
- Deixar de falar dos colegas, ou falar de um colega com medo.
O que fazer hoje, sem drama
- Troque o "como foi a escola?" por perguntas concretas. "Com quem você ficou no recreio?" "Aconteceu alguma coisa chata no grupo da turma hoje?" "Tem alguém na sala que todo mundo implica?" Pergunta concreta gera resposta concreta.
- Combine que contar nunca vai custar o celular. Fale isso com essas palavras. A vítima precisa saber que o canal está aberto.
- Se aconteceu, guarde as provas. Print com data e hora, link do perfil, nome do grupo. Não responda, não revide, bloqueie e denuncie na plataforma.
- Avise a escola por escrito. E-mail ou mensagem, com as provas. A lei obriga a escola a agir, e por escrito fica registrado.
- Cuide da saúde emocional. O Canal de Ajuda da SaferNet orienta crianças, adolescentes e famílias sobre violência na internet. Se perceber sofrimento persistente, procure um psicólogo ou o posto de saúde.
E se algo envolver imagem íntima, mesmo falsa, o caso é mais sério e tem caminho próprio. Expliquei em Deepfake na escola.
O que muda em cada idade
- De 7 a 10 anos. É a idade de nomear. Explique que zoar uma vez é diferente de perseguir sempre. Ensine a frase "isso não é legal, para" e a regra de contar para um adulto. E lembre que essa é a idade em que muitos ganham o primeiro celular: leia O primeiro celular antes de entregar o aparelho.
- De 11 a 14 anos. É a idade do grupo da turma e da pressão para pertencer. Converse sobre o espectador: quem ri, repassa ou fica calado também alimenta a agressão. Quem avisa um adulto não é dedo-duro.
- De 15 a 17 anos. Fale de lei e de consequência, de igual para igual. Pergunte o que ele faria se visse um colega sendo exposto. E mostre que você também confere o que posta, porque o exemplo ensina mais que o sermão.
E a escola?
A escola não precisa resolver sozinha, e nem consegue. Mas pode começar amanhã: tratar bullying, saúde mental e uso de álcool no mesmo programa, como os pesquisadores sugerem; ter um protocolo escrito para casos que começam no pátio e terminam no celular; e chamar as famílias para a conversa antes do problema, não só depois.
O celular saiu da sala. A educação digital precisa ficar. E ela começa com a gente perguntando como foi o recreio.
No curso Educar na Era Digital, você sai do "proíbe e libera" e monta com o seu filho combinados que funcionam, incluindo o que fazer quando algo dá errado no grupo da turma, sem que contar vire castigo. No Proteção Real, você aprende a reconhecer os sinais de que algo não vai bem e o passo a passo para agir sem pânico e sem vigiar. A palestra Redes, Grupos e Pressão foi feita exatamente para a idade em que o grupo da turma manda em tudo. E a palestra Escola e Família no Comando coloca pais e professores na mesma conversa, que é onde o cyberbullying perde força.
As fontes deste artigo
- Canguru News. Cyberbullying não começa na internet: estudo mostra que violência pode acompanhar adolescente da escola para as telas, 01/10/2026.
- Crub. Pesquisa da Unifesp aponta que casos de cyberbullying em adolescentes podem estar interligados com violência na escola, 2026.
- Poder360. Cyberbullying é extensão da violência escolar, revela estudo, 2026.
- Planalto. Lei nº 14.811, de 12 de janeiro de 2024, inclui o bullying e o cyberbullying no Código Penal (art. 146-A).
- Planalto. Lei nº 13.185, de 6 de novembro de 2015, Programa de Combate à Intimidação Sistemática.
- Planalto. Lei nº 15.100, de 13 de janeiro de 2025, uso de celulares pelos estudantes nas escolas.
- Correio Braziliense. Celular sai da sala, mas escolas ainda ensinam a viver no digital, setembro de 2026.
- SaferNet Brasil. Canal de Ajuda, acesso em 02/10/2026.
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